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Tales Faria

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Líder no Senado, Fernando Bezerra é estrela em ascensão na gestão Bolsonaro

Tales Faria

04/06/2019 10h04

A líder do governo no Congresso, deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), apareceu ontem no Senado para acompanhar a tramitação das medidas provisórias. À noite, durante a votação, desfilou pelo plenário, abraçou e beijou senadores, posou para fotos e fez transmissões ao vivo para as redes sociais pelo celular.

Mas quem brilhou nas hostes governistas foi o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE). Coube a ele as articulações pela aprovação das MPs e a negociação das soluções para aquelas não aprovadas.

Fernando Bezerra é a estrela em ascensão entre os articuladores políticos do governo.

Herdeiro e substituto de Romero Jucá (MDB-RR), outro senador polêmico e habilidoso que foi líder nos governos de Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer.

Como Jucá, Bezerra passou a ser chamado para solucionar alguns dos principais problemas da articulação do Governo com o Congresso, especialmente quando envolvem o Senado.

Como seu antecessor, pegou fama de quem "dá nó em pingo d'água". Também foi ministro e líder nos governos do PT e de Michel Temer. E, ainda como Jucá, é alvo de acusações na Operação Lava Jato.

Em maio, o Ministério Público revelou que o Tribunal Regional Federal de Pernambuco (TRF-4) determinou que Bezerra tenha até R$ 258 milhões bloqueados junto com espólio do ex-governador morto em 2014, Eduardo Campos (PSB), por suposto desvio de verbas da Petrobras.

A defesa do senador argumenta que a acusação se baseia nos mesmos elementos do inquérito arquivado pelo Supremo Tribunal Federal em dezembro do ano passado.

Recentemente, Bezerra foi relator da medida provisória da reforma administrativa, que reduziu de 29 para 22 o número de ministérios do governo Jair Bolsonaro.

A MP foi escolhida pelo chamado Centrão do Congresso para uma demonstração de força contra o governo. O Centrão é um bloco informal de partidos sem orientação ideológica e que reúne cerca de 200 deputados do PP, DEM, MDB, PL, PRB, PSD e SD. Quando se junta à oposição, o bloco forma uma maioria avassaladora.

O Centrão promoveu diversas modificações na MP 870. As principais foram:

  • criação de dois novos ministérios;
  • transferência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Justiça para o da Economia;
  • limitação dos poderes de investigação dos fiscais da Receita Federal.

Bezerra convenceu Bolsonaro a negociar para a medida não cair e o governo ser obrigado a voltar à configuração administrativa da gestão de Michel Temer.

A MP acabou sendo aprovada sem os novos ministérios e sem limitar poderes dos fiscais, mas com o Coaf transferido.

Mas o maior ganho, segundo os líderes, foi ter convencido Bolsonaro da necessidade de negociar com o Congresso. Desde então o presidente tem se mostrado mais flexível.

Ontem, para aprovar a medida provisória de combate às fraudes do INSS, Fernando Bezerra levou ao Senado o secretário especial da Previdência, Rogério Marinho.

E fechou acordo para incluir no relatório da reforma da Previdência, em tramitação na Câmara, a possibilidade de prorrogação no prazo de inscrição no Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS). Isso viabilizou a aprovação da MP do INSS no Senado.

No plenário, garantiu vetos presidenciais a itens não aceitos pelos senadores.

Para aprovar ainda ontem a MP 872, dos funcionários da Advocacia Geral da União (AGU), convenceu os senadores a derrubar um jabuti destinado à carreira do corpo de bombeiros militares do Distrito Federal em troca de um projeto de lei que poderá ser enviado pelo governo em regime de urgência.

O senador se tornou ainda um dos conselheiros do presidente para a relação com o Nordeste, região onde Jair Bolsonaro teve menos votos e Lula ainda brilha.

Foi ele quem ciceroneou a passagem Jair Bolsonaro por Pernambuco, no último dia 23 de maio, a primeira visita do presidente no cargo ao Nordeste, quando participou de reunião com os governadores da Sudene.

Fernando Bezerra levou o presidente a Petrolina, sua área de influência eleitoral, para a inauguração de um conjunto residencial.

Também foi Bezerra quem bancou a nomeação do advogado Antônio Campos para presidir a Fundação Joaquim Nabuco. Trata-se do irmão de Eduardo Campos, em crise com o PSB local e atritado com a viúva do ex-governador, Renata Campos.

Numa rádio local, para desagrado do governador Paulo Câmara (PSB), anunciou que convenceu o governo federal a enviar para o Senado aval autorizando um empréstimo de U$ 37 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Se o ciume não prosperar, logo será o líder de maior influência no governo. Já é o mais habilidoso, digamos assim.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, “Todos os Sócios do Presidente”, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Sobre o blog

Os bastidores da política pela ótica de quem interessa: o cidadão que paga impostos e não quer ser manipulado pelos poderosos. Investigações e análises com fatos concretos, independência e sem preconceitos.