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Tales Faria

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Recuo de Bolsonaro em favor das polícias irrita Centrão e atrapalha reforma

Tales Faria

03/07/2019 13h46

É grande, muito grande a irritação dos líderes do Centrão com o recuo do presidente Jair Bolsonaro sobre os benefícios para policiais na reforma da Previdência.

Ontem, policiais civis, militares, federais, bombeiros, agentes penitenciários e representantes de carreiras correlatas fizeram manifestação no Congresso e na Praça dos Três Poderes chamando Bolsonaro de traidor pelo fato de o governo propor a reforma sem equiparar a categoria aos militares.

Hoje, a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, revelou que Bolsonaro entrou pessoalmente em campo, ainda na tarde desta terça (2), para modificar trecho da reforma da Previdência que muda as regras de aposentadoria das carreiras de segurança.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse a líderes que chega a pensar em desistir da reforma.

Maia não só comanda a Câmara oficialmente. Ele lidera informalmente o chamado Centrão, um grupo de cerca de 200 deputados de PP, DEM, MDB, PL, PRB e SD que tem determinado o rumo das votações no Congresso.

O Centrão está à frente das movimentações para aprovar a reforma ainda neste mês na Câmara.

O grupo primeiro reclamou do fato de o partido do presidente, o PSL, ter apresentado o maior número de emendas ao projeto de reforma igualando os benefícios dos policiais aos dos militares.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, intercedeu e o presidente pediu ao PSL para recuar. Agora, com o Palácio voltando atrás, os outros partidos já começam a reclamar publicamente.

O presidente nacional do PRB, deputado Marcos Pereira (SP), que é vice-presidente da Câmara, disse ao blog:

"Se abrir para uma categoria todas as outras irão querer também. Se Paulo Guedes disser que quer voltar atrás, aí nos avaliaremos."

É uma forma de jogar o ministro contra o presidente.

"Isso é péssimo. Atrapalha muito", disse ao blog o líder do Novo, Marcel van Hattem (RS). "Na minha visão o presidente deveria era pedir voto da bancada toda para o projeto original da reforma", argumenta.

Os partidos oficialmente contrários ao governo se aproveitam:

"Se nem o governo, que defende a reforma, está satisfeito com a forma final do texto e o texto vai mudar, não é razoável começar uma votação sem saber o que se está votando", disse o líder da oposição, Alessandro Molon (PSB-RJ), ao sair da reunião dos coordenadores de bancada na Comissão Especial da Previdência.

Em  outras palavras: a oposição vai tentar atrasar a votação. E os partidos do Centrão agora cobrarão um sinal claro do governo para manter o ritmo.

Veja o protesto de ontem dos policiais na Câmara que fez Bolsonaro recuar:

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, “Todos os Sócios do Presidente”, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Sobre o blog

Os bastidores da política pela ótica de quem interessa: o cidadão que paga impostos e não quer ser manipulado pelos poderosos. Investigações e análises com fatos concretos, independência e sem preconceitos.