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Tales Faria

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Operação tem nome de marionete, mas pode vir a se chamar “Bumerangue”

Tales Faria

15/10/2019 09h06

A Polícia federal batizou de "Guinhol" a operação de busca e apreensão realizada na manhã desta terça-feira (15) em endereços ligados ao deputado Luciano Bivar (PSL-PE).

Guinhol é o nome de uma marionete, personagem do teatro de fantoches criado no século XIX em Lion, na França. De fato, a operação investiga marionetes usadas pelo PSL na campanha eleitoral de 2018.

Não está claro ainda quem é exatamente a marionete que a PF busca e de quem são os dedos que operavam os cordões do fantoche.

Endereços de candidatas não eleitas para a Assembleia Legislativa de Pernambuco pelo PSL também são alvos da operação. Entre elas estão Maria de Lourdes Paixão e Erika Santos.

O pernambucano Luciano Bivar é presidente nacional do PSL e durante quase todo tempo mandou e desmandou no partido.

Uma hipótese inicial da PF é de que Bivar seja a mão que operou a candidatura laranja das duas moças.

Se for assim, o agora inimigo do presidente Jair Bolsonaro poderá ser o grande e único triturado pela Polícia Federal nessa operação deflagrada logo após Bolsonaro declarar guerra ao presidente de seu partido.

Mas há mais frutas podres nesse laranjal. Erika Santos também foi assessora do ex-ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República.

Bebiano, como se sabe, era advogado e amigo pessoal de Bolsonaro. Assumiu como presidente do PSL durante a campanha eleitoral. Foi uma condição imposta pelo candidato para concorrer pela sigla, já que queria o controle total das verbas partidárias no período.

Erika trabalhou na campanha ao lado de Bebiano.

Empossado como presidente da República, Bolsonaro acabou rompendo e demitindo Bebiano do governo. Mas o fato é que, enquanto Bivar assinava a liberação de recursos de campanha para Lourdes, foi Bebiano, quando presidente nacional do PSL na campanha de Bolsonaro, que liberou as verbas para Erika.

Suspeita-se que parte da verba recebida em sua suposta campanha serviu para outros fins. Assim, a mão que operou a marionete Erika pode ser a de Bebiano ou este também se mostrar um fantoche que foi operado por outras mãos.

Ou seja, se as investigações em torno de Erika e Bebiano atingirem a campanha presidencial, a Operação Guinhol, neste caso, poderá se tornar um verdadeiro bumerangue voltando-se contra quem de fato comandava Bebiano durante a campanha.

Nota do blog:

Às 22h39 Gustavo Bebiano telefonou para o blog e afirmou que não tinha qualquer ascendência sobre Erika Santos, nem mesmo quando ela foi trabalhar em Brasília, no período da campanha presidencial, quando Bebiano presidia o partido.

"Ela era de Pernambuco e foi contratada pelo Bivar antes do período em que assumi como presidente. Depois, eu praticamente não tive contato com a Erika, nem mesmo quando ela foi para Brasília no início da campanha, quando se imaginou que poderia ser necessário mais gente no contato com a imprensa. Foi o Bivar que a enviou de Pernambuco para Brasília, onde ela deve ter ficado de março a abril sem que fosse acionada. Era, para nós, apenas uma funcionária antiga do partido, ligada ao Bivar. Ela ficou encostada, lá no canto dela. Nada fez de significativo na campanha presidencial", disse Bebiano.

O ex-ministro afirma que não houve irregularidade na campanha de Bolsonaro:

"Fui traído pelo presidente da República que ajudei a eleger, em quem acreditei e a quem sempre fui fiel. Agora sou crítico àquilo que vejo de errado no governo. Mas não sei da pratica de candidaturas laranja no período em que comandei o PSL. Nem havia matéria prima para um laranjal. Fizemos uma campanha modesta em que devolvemos R$ 1,5 milhão dos R$ 4 milhões que arrecadamos em doações de pessoas físicas. Podem ter ocorrido erros pontuais, mas esquema não houve. Se ocorreram problemas, são de responsabilidade dos diretórios estaduais que montam as suas chapas."

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, “Todos os Sócios do Presidente”, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Sobre o blog

Os bastidores da política pela ótica de quem interessa: o cidadão que paga impostos e não quer ser manipulado pelos poderosos. Investigações e análises com fatos concretos, independência e sem preconceitos.